Na capital das grandes distâncias, aceitar um convite também pode ser uma demonstração de carinho — porque, por aqui, atravessar a cidade por alguém é quase uma declaração de amor.

Existe uma pergunta que todo brasiliense faz antes de aceitar qualquer convite:
“Mas vai ser onde?”
Não é falta de educação. É planejamento estratégico.
Porque, em Brasília, não basta saber o dia, o horário e quem vai. A gente precisa calcular a distância, imaginar o trânsito, pensar no caminho e, dependendo do endereço, avaliar o tamanho do carinho que sente pela pessoa.
Dez quilômetros? Tranquilo.
Vinte? Depende de quem chamou.
Trinta? Já não é convite. É prova de amizade.
E tem uma coisa curiosa: por aqui, a definição de “perto” é completamente particular.
A gente fala “é logo ali” sobre um lugar a 15 quilômetros de distância com a maior naturalidade do mundo. Mas basta o convite ser do outro lado do DF que aquele café despretensioso começa a ganhar ares de excursão.
E não é só a distância.
Tem Eixão. Tem EPTG. Tem trânsito. Tem combustível. Tem estacionamento. Tem aquele retorno que você errou e, de repente, acrescentou mais dez minutos à viagem.
Quem nunca?
Mas Brasília também tem suas contradições.
A gente reclama que tudo é longe e, no fim de semana, atravessa a cidade porque alguém falou que abriu um restaurante maravilhoso do outro lado. Reclama do trânsito, mas pega o carro para encontrar quem ama. Jura que “da próxima vez vocês vêm para cá” e, duas semanas depois, está fazendo exatamente o mesmo caminho outra vez.
Talvez por isso a distância tenha virado uma espécie de linguagem afetiva brasiliense.
Porque, quando alguém que mora longe recebe seu convite e responde apenas:
“Tô indo.”
Valorize.
Essa pessoa não está simplesmente saindo de casa.
Ela está enfrentando quilômetros, trânsito e, provavelmente, pelo menos uma tesourinha por você.
E, entre nós, Brasília…
atravessar o DF por alguém também é uma forma de dizer: você vale o caminho.
Por: Denise Melo


