Entre o céu que não cabe na fotografia, as distâncias, o trânsito e aquele pôr do sol que faz a gente parar por alguns segundos, existe uma relação com Brasília que só quem vive aqui entende

Brasília é uma cidade curiosa.
A gente reclama da distância. Reclama do trânsito. Reclama da seca. Quando começa a chover, reclama da chuva. Diz que tudo é longe, que depois das dez da noite parece que metade da cidade resolveu dormir e que encontrar alguém do outro lado do Distrito Federal exige praticamente um planejamento de viagem.
Mas basta passar alguns dias longe para alguma coisa começar a fazer falta.
Às vezes é o céu.
E talvez seja justamente por aí que Brasília começa a conquistar quem aprende a olhar para ela.
Não é preciso morar aqui por muito tempo para perceber que o céu faz parte da paisagem de uma maneira diferente. Ele aparece enorme entre os prédios, acompanha quem atravessa o Eixão e, no fim da tarde, frequentemente transforma uma volta comum para casa em alguns minutos de contemplação.
Quem nunca diminuiu o passo — ou levantou o celular — porque o pôr do sol resolveu aparecer bonito demais?
Brasília não cabe apenas no Plano Piloto
Durante muito tempo, falar de Brasília para quem está de fora significava mostrar a Esplanada dos Ministérios, o Congresso Nacional, a Catedral e os monumentos que aparecem nos cartões-postais.
Mas quem mora no Distrito Federal sabe que Brasília é muito maior do que isso.
Brasília também está em Ceilândia, Taguatinga, Samambaia, Guará, Planaltina, Brazlândia, São Sebastião, Sobradinho e em tantas outras regiões que constroem diariamente a identidade da capital.
Está na feira de domingo, no cachorro-quente depois do trabalho, no barzinho escondido que alguém indicou, na padaria da esquina e naquela expressão tão brasiliense:
“É perto.”
Perto, claro, dependendo de onde você está.
Porque quem mora aqui também desenvolveu uma relação bastante particular com distância.
A pergunta mais brasiliense de todas
Em Brasília, antes de aceitar um convite, existe uma informação fundamental:
“Onde vai ser?”
Não é falta de interesse.
É logística. 😂
Dependendo da resposta, o convite para um café pode envolver trânsito, EPTG, Estrutural, Eixão, W3, metrô, estacionamento e uma reconsideração completa das escolhas feitas naquele dia.
Quem mora no DF aprende rapidamente que quilômetros não contam toda a história. O horário conta. O trânsito conta. E, principalmente, de qual lado da cidade você está conta muito.
Talvez por isso cada região tenha criado sua própria rotina, seus lugares preferidos e aquela sensação de pequena cidade dentro de uma cidade enorme.
Tem também a seca…
Chega uma época do ano em que Brasília muda.
A grama perde o verde, o céu fica ainda mais azul e o hidratante labial passa praticamente a fazer parte dos documentos pessoais.
Começam as frases:
“Hoje está seco demais.”
“Você viu quanto deu a umidade?”
“Vai chover quando?”
Até que aparecem as primeiras nuvens.
E o brasiliense, que passou meses pedindo chuva, comemora aquele cheiro de terra molhada como se fosse um acontecimento.
Alguns dias depois, provavelmente estaremos reclamando da chuva.
Faz parte.
E existe uma Brasília que não aparece nos cartões-postais
Talvez seja essa a parte mais interessante.
Existe a Brasília monumental que o Brasil conhece e existe a Brasília cotidiana que pertence a quem vive aqui.
Aquela das histórias construídas nos bairros, das famílias que chegaram de diferentes estados, das amizades, dos pequenos negócios, dos projetos culturais e das pessoas que transformaram o Distrito Federal em casa.
Uma cidade planejada no papel, mas completamente reinventada por quem veio morar nela.
Brasília pode parecer fria para quem chega.
Pode parecer distante.
Pode levar algum tempo até que alguém encontre seu lugar por aqui.
Mas, quando encontra, alguma coisa acontece.
Você começa a ter sua padaria.
Seu restaurante.
Seu caminho preferido.
Seu lugar para ver o pôr do sol.
Aquele canto da cidade onde estão suas histórias.
E, sem perceber, Brasília deixa de ser apenas o lugar onde você mora.
Vira a sua Brasília.
Talvez seja por isso que a gente reclame tanto dela.
Porque existe uma intimidade enorme em reclamar de casa.
E também porque, entre uma reclamação e outra, a verdade acaba aparecendo:
a gente gosta desse quadradinho.
Por Denise Melo


