Para quem chegou de outro lugar, talvez não exista uma data exata. Um dia, sem perceber, Brasília deixa de ser a cidade onde você mora e passa a ser o lugar para onde você volta.

Tem gente que nasceu em Brasília.
Tem gente que chegou criança, adolescente, adulta. Veio para estudar, trabalhar, acompanhar a família, buscar uma oportunidade ou simplesmente porque a vida resolveu mudar de endereço.
E existe uma diferença enorme entre morar em uma cidade e sentir que aquela cidade é sua casa.
O curioso é que essa mudança raramente acontece de uma vez.
Ninguém acorda numa terça-feira qualquer, olha pela janela e pensa:
“Pronto. A partir de hoje sou brasiliense.”
Brasília vai entrando na gente aos poucos.
Primeiro, tudo parece diferente
Quem chega de fora precisa aprender Brasília.
As siglas parecem um idioma próprio. Asa Norte, Asa Sul, SQS, SQN, SHIS, SIA, EPTG…
Você pergunta onde fica alguma coisa e recebe uma resposta que parece uma equação:
“É na 306, perto da comercial, depois da tesourinha.”
Obrigada. Agora ficou claríssimo.
Também leva um tempo para perceber que Brasília é muito maior do que aquela imagem que aparece na televisão. Cada região tem seu jeito, seus lugares e suas histórias.
Até que aquilo que parecia estranho começa a ficar familiar.
Você começa a criar os seus lugares
Tem a padaria de que você gosta, o mercado onde já sabe onde está tudo, o caminho preferido para voltar para casa e aquele lugar onde encontrou amigos, viveu um amor ou comemorou alguma coisa importante.
É aí que a cidade deixa de ser apenas ruas, prédios e endereços.
Ela começa a acumular as suas histórias.
Até o nosso jeito de falar muda
Talvez exista um momento especialmente curioso para quem veio de outro estado.
Você está conversando e, sem perceber, solta:
“Lá na minha cidade…”
E está falando da cidade onde nasceu.
Espera.
Lá?
Porque, se aquele lugar virou “lá”, onde é “aqui”?
Talvez seja nesse instante que você perceba que alguma coisa mudou.
Brasília virou o lugar de onde você parte e, principalmente, o lugar para onde você volta.
Casa é o lugar que a gente reconhece
É voltar de uma viagem e reconhecer a cidade pela janela. É saber o caminho de casa sem pensar. É reclamar do trânsito, da seca, da chuva e das distâncias com a intimidade de quem reclama de alguém da família.
Porque a gente reclama de Brasília.
Mas experimenta alguém de fora falar mal dela para ver se não aparece imediatamente um:
“Também não é assim…”
Talvez não exista um momento exato
Talvez Brasília vire casa numa coleção de coisas pequenas.
Nos amigos que viraram família. No trabalho. Na casa que você montou. Nos filhos que nasceram aqui. Na feira de domingo. Nos lugares que já fazem parte da sua história.
Até que um dia você viaja e, na hora de voltar, pensa:
“Estou indo para casa.”
E casa é Brasília.
Acho que é aí.
E, entre nós, Brasília… talvez a gente não perceba quando começa a pertencer a uma cidade. A gente percebe quando começa a sentir saudade dela antes mesmo de voltar.




